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O ateu e o atoa

O Ateu e o à-toa
                     ( Richard Simonetti)
Que dedução se pode tirar do sentimento instintivo, que todos os homens trazem em si, da existência de Deus?

A de que Deus existe; pois, donde lhes viria esse sentimento, se não tivesse uma base? É ainda uma conseqüência do princípio - não há efeito sem causa.



Questão nº 5, de O Livro dos Espíritos



Se seu pai, prezado leitor, já se transferiu “desta para melhor”, além das sombras do sepulcro, talvez você não esteja em condições de um contato feliz, facultado pela vidência mediúnica.

Pode faltar-lhe, também, suficiente sensibilidade para perceber-lhe a presença, em eventual visita que lhe faça, pois os que vivem lá não esquecem os que vivem cá.

Mas, elementar exercício de raciocínio, ao alcance de qualquer criança, lhe dirá que tem um pai, como toda gente. Seria altamente improvável que você houvesse surgido das profundezas do nada...

E o coração lhe dirá, quando se disponha a ouvi-lo, que o seu pai continua a existir, não apenas na sua saudosa lembrança, mas como individualidade imortal que dos etéreos horizontes espirituais permanece ligado a você.

É o que ocorre em relação a Deus.

Há algo de intuitivo que brota do mais íntimo de nossa personalidade, refletindo milenares experiências religiosas, a nos dizer que Deus existe!

O ateísmo, por isso, é uma aberração. Não passa de mera pretensão da intelectualidade vazia intoxicada pelo orgulho.

No livro Trovadores do Além, psicografia de Francisco Cândido Xavier, o poeta Alberto Ferreira nos oferece ilustrativa trova:



Ateu - enfermo que sonha

Na ilusão em que persiste,

Um filho que tem vergonha

De dizer que o pai existe.



***



Em Espíritos evoluídos a consciência da presença de Deus é tão intensa que se manifesta desde as experiências mais singelas da infância.

No prefácio do livro Renúncia, psicografia de Francisco Cândido Xavier, o Espírito Emmanuel reporta-se aos seus primeiros contatos com Alcione, a personagem central da história.

Ainda uma menina, caminhava com o Padre Damiano, bondoso sacerdote que a orientava.

Com encantadora simplicidade, perguntava-lhe:



– Padre Damiano, quem terá feito as nuvens, que parecem flores grandes e pesadas, que nunca chegam a cair no chão?

– Deus – minha filha – dizia o sacerdote.

Mas, como se no coração pequenino não devesse existir esquecimento das coisas simples e humildes, voltava ela a interrogar:

– E as pedras? - quem teria feito as pedras que seguram o chão?

– Foi Deus também.

Então, após meditar de olhos mergulhados no grande crepúsculo, a pequenina exclamava:

– Ah! como Deus é bom! Ninguém ficou esquecido!

E era de ver-se a sua bondade singular, o interesse pelo dever cumprido, dedicação à verdade e ao bem.



Sobre sua atuação inesquecível, na edificação de afeiçoados seus, destaca Emmanuel:



Creio mesmo que ela nunca satisfez a um desejo próprio, mas nunca foi encontrada em desatenção aos desígnios de Deus. Jamais a vi preocupada com a felicidade pessoal; entretanto, interessava-se com ardor pela paz e pelo bem de todos. Demonstrava cuidado singular em subtrair, aos olhos alheios, seus gestos de perfeição espiritual, porém queria sempre revelar as idéias nobres de quantos a rodeavam, a fim de os ver amados, otimistas, felizes.



Alcione foi um anjo encarnado, em trânsito pela Terra, com a tarefa gloriosa de ajudar a um grupo de Espíritos ligados ao seu coração.

A nobreza de caráter que a distinguia e sua estreita sintonia com os ensinamentos de Jesus fariam dela uma figura inesquecível, beneficiando a todos os que cruzavam seu caminho com valores de um conhecimento espiritual incomparável e de comovente dedicação ao próximo.

Era ela própria a representação marcante da presença de Deus.



***



Curiosamente, encontramos pessoas de boa índole, generosas e esclarecidas que, não obstante, por razões inabordáveis, mostram-se incapazes de reconhecer essa realidade.

Tendo em vista seus méritos, Deus vem em seu auxílio, oferecendo-lhes experiências renovadoras, que surgem à maneira da Estrada de Damasco que marcou a conversão de Paulo de Tarso ao Cristianismo.

A propósito há a edificante história de um farmacêutico, dono de uma farmácia de manipulação.

Era um homem bom, cumpridor de seus deveres, de princípios retos, mas que simplesmente não encontrava espaço em suas cogitações íntimas para a existência de Deus.

Certa feita, fechava mais cedo a farmácia, em virtude de um compromisso, quando entrou uma menina.

– Sinto muito, minha filha. Estou de saída...

– Por favor, senhor farmacêutico, é muito importante. Trago uma receita para minha mãe. Está gravemente enferma. Deve tomar o remédio imediatamente. Corre risco de vida!

Vendo-a tão aflita, o farmacêutico decidiu atendê-la.

Apanhou a receita, foi ao laboratório e rapidamente preparou o remédio com a mistura recomendada.

A menina agradeceu e partiu, apressada.

O bom homem voltou ao laboratório para guardar o material usado.

Estarrecido, verificou que na pressa havia trocado vidros, usando uma substância extremamente tóxica que, se ingerida pela mulher, provocaria sua morte.

Apavorado, correu à entrada da farmácia, olhou a rua em todas as direções, foi até a esquina... Não mais viu a menina.

Tentou entrar em contato com o médico que indicara o medicamento. Não o encontrou.

O tempo passava, célere. Em breves momentos a menina chegaria em casa.

Atormentado, sentindo-se na iminência de converter-se num criminoso, matando a pobre mãe com seu descuido, caiu de joelhos e, erguendo o olhar, falou, suplicante:

– Deus, se você existe, realmente, ajude-me, por misericórdia! Não quero transformar-me num assassino!

E derramou-se em lágrimas, repetindo rogativas àquele Deus em que não acreditava, mas que era sua última esperança.

Assim ficou por vários minutos, até que alguém tocou em seus ombros.

Voltou-se e, num misto de espanto e alívio, viu que era a menina de retorno.

– Ah! senhor farmacêutico, uma coisa terrível aconteceu. Tão afobada eu estava a correr, na ânsia de levar o remédio para minha mãe, que caí, não sei como. O vidro escapou-me das mãos e se espatifou. Não tenho dinheiro para outra receita. Por favor, atenda-me, em nome de Deus!

O farmacêutico suspirou emocionado:

-Sim, sim, minha filha! Fique tranqüila! Eu lhe darei o remédio, em nome de Deus!

Preparou uma nova receita, agora com infinito cuidado, sem pressa. Entregou o medicamento à menina.

– Deus lhe pague, senhor farmacêutico!

– Vá com Deus, minha filha! Deus a abençoe!

E nunca mais o nome de Deus saiu de seus lábios, nem de seu coração.



***



No desdobramento de nossas experiências acabamos todos reconhecendo a Presença Divina. É algo muito forte em nós. Mesmo entre os piores criminosos e viciados dificilmente encontraremos gente negando essa realidade.

O problema da Humanidade, longe de ser o ateu é o à-toa.

Releve-me a expressão, leitor amigo.

Não pretendo enquadrá-lo, até mesmo porque o heróico esforço de enfrentar este precário exercício de literatura espírita situa você acima do mortal comum, este sim, à-toa no sentido da indolência, da indiferença em relação aos objetivos da existência humana.

Quando os homens se derem ao trabalho de refletir um pouco sobre o significado da presença de Deus nos Universo, a exercitar a Justiça Perfeita, dando a cada um segundo suas obras, como ensinou Jesus, não mais veremos gente à-toa.

Haverá apenas gente à toda, em pleno empenho por transformar a crença em Deus numa gloriosa existência com Deus!



Do livro A Presença de Deus

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